1 de dezembro de 2006

Pessoas descartáveis


Vendo bem, vivemos na era das coisas descartáveis. O 'use e deite fora' é a ordem do dia. Já ninguém tem paciência para investir nas coisas, já ninguém quer ter o trabalho que isso dá. É sempre mais fácil abrir a embalagem, retirar o produto, usar e deitar fora no final... E quando quisermos usá-lo de novo, volta-se a abrir nova embalagem.
Mas as pessoas não vêm embaladas, protegidas por polietileno... Os sentimentos não são conservados em vácuo... Como é possível que se tenham esquecido disso?! Desde quando nos voltamos todos de costas uns para os outros e nos esquecemos de cultivar os laços que nos uniam?! As relações precisam de alimento, precisam de carinho para crescer...
As pessoas não são descartáveis! E detesto sentir-me assim...


"E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu o principezinho com delicadeza.
Mas ao voltar-se não viu ninguém.
- Estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu?, disse o principezinho. És bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs-lhe o principezinho. Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah! Perdão, disse o principezinho.
Mas depois de ter reflectido, acrescentou:
- Que significa "cativar"?
- Tu não deves ser daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro homens, disse o principezinho. Que significa "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?
- Não, disse o principezinho. Ando à procura de amigos. Que significa "cativar"?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Isso mesmo, disse a raposa. Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Para ti, não passo de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... creio que ela me cativou.
- É possível, disse a raposa. Vê-se tudo à superfície da Terra...
- Oh! Não é na Terra, disse o principezinho.
A raposa mostrou-se muito intrigada:
- Noutro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse tal planeta?
- Não.
- Isso tem muito interesse! E galinhas?
- Não.
- A perfeição não existe, suspirou a raposa.Mas voltou à mesma ideia.
- Levo uma vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens caçam-me a mim. Todas as galinhas são iguais e todos os homens são iguais. Por isso eu me aborreço um pouco. Mas, se tu me cativares, será como se o Sol iluminasse a minha vida. Distinguirei, de todos os passos, um novo ruído de passos. Os outros passos fazem-me esconder debaixo da terra. Os teus hão-de atrair-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Vês lá adiante os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E é triste! Mas os teus cabelos são cor de ouro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso. Como o trigo é dourado, fará lembrar-me de ti. E hei-de amar o barulho do vento do trigo...
A raposa calou-se e olhou por muito tempo para o principezinho:
- Cativa-me, por favor, disse ela.
- Tenho muito gosto, respondeu o principezinho, mas falta-me tempo. Preciso de descobrir amigos e conhecer muitas coisas.
- Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada. Compram coisas feitas aos mercadores. Mas como não existem mercadores de amigos, os homens não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- Como hei-de fazer?, disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo rabinho do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
No dia seguinte, o principezinho voltou.
- Era melhor teres voltado à mesma hora, disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, às três eu já começo a ser feliz. À medida que o tempo avançar, mais feliz me sentirei. Às quatro horas já começarei a agitar-me e a inquietar-me; descobrirei o preço da felicidade. Mas se vieres a uma hora qualquer, nunca posso saber a que horas hei-de vestir o meu coração... São precisos ritos.
- O que é um rito? disse o principezinho.
- É também qualquer coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas. (...)
Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando se aproximou a hora da partida:
- Ah! disse a raposa... Vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, não queria que te acontecesse mal; mas quiseste que eu te cativasse...
- É certo, disse a raposa.
- Mas vais chorar!, disse o principezinho
- É certo, disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ganho, sim, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois acrescentou:
- Vai ver outra vez as rosas. Compreenderás que a tua é única no mundo. Quando voltares para me dizeres adeus, faço-te presente de um segredo.
O principezinho foi ver outra vez as rosas.
- Vós não sois nada parecidas com a minha rosa; ainda não sois nada, disse-lhes ele. Ninguém vos cativou, nem vós cativaste ninguém. Sois como era a minha raposa. Não passava de uma raposa igual a cem mil raposas. mas fiz dela minha amiga e agora é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante aborrecidas.
- Vós sois belas, mas vazias, disse-lhes mais. Ninguém vai morrer por vós. É certo que, quanto à minha rosa, qualquer vulgar transuente julgará que ela se vos assemelha. Mas, sozinha, ela vale mais do que vós todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que pus numa redoma. Porque foi ela que abriguei com um biombo. Porque foi por causa dela que matei as lagartas (excepto duas ou três para as borboletas). Porque foi ela e só ela que ouvi lamentar-se ou gabar-se, ou mesmo, por vezes, calar-se. Porque é a minha rosa.
E voltando para junto da raposa:
- Adeus, disse ele.
- Adeus, disse a raposa. Vou dizer-te o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se recordar.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se recordar.
- Os homens esqueceram esta verdade. Mas tu não deves esquecê-la. Ficas para sempre responsável por aquele que cativaste. És responsável pela tua rosa.
- Sou responsável pela minha rosa, repetiu o principezinho, a fim de se recordar."

"O Principezinho" de Antoine de Saint - Exupéry

29 de novembro de 2006

Eles e Elas

Porque eles serão sempre eles e elas serão sempre elas, sejam os anos 70, 80, 90 ou 2000...
E algumas coisas simplesmente não mudam!

12 de novembro de 2006

Uma noite de Inverno



A neve caía lá fora, formando um manto branco, cobrindo todas as outras cores. Viam-se as pegadas que as pessoas apressadas deixavam ao correr para casa. Estava frio, e nem os casacos, cachecóis e gorros eram suficientes para se manterem aconchegadas... Era urgente o conforto da casa, o acolhimento da fogueira. Mas não para eles.
A eles bastava-lhes o chocolate quente que tomavam no Café e o calor das gargalhadas que partilhavam. Lá fora viam o corrupio do fim do dia, mas deixaram-se ficar sentados, observando o manto branco ficar cada vez mais desfeito, mais imperfeito. Todavia, parecia-lhes o dia mais perfeito de sempre! Na imperfeição das pegadas e marcas dos pneus dos carros, compreenderam como era o caminho de regresso ao lar, às pessoas significativas, ao afecto e carinho. Porque é principalmente nos dias frios que procuramos os abraços e os beijos que despertam a chama interior que nos aquece. Mas para eles não.
Ainda não era altura de se separarem para voltarem para casa. Ainda não era o momento de terminarem o encontro. Não estavam abraçados, não se tinham beijado, mas estavam mais confortáveis do que nunca na companhia um do outro.
O Café foi ficando vazio, as mesas ficaram despidas e eles nem tinham dado conta do tempo a passar! Era como se nada mais existisse para além deles os dois. E, subitamente, aperceberam-se como aquela pequena mesa parecia separá-los como se fosse um oceano, como eram tão importantes um para o outro. Mas nenhum deles sabia!
Nunca tinham trocado carícias, nem juras de amor, nem promessas. Não havia certezas do papel que desempenhavam na vida um do outro, mas ambos esperavam que fosse um papel primordial.
Chegara a altura de saírem, o Café ia fechar.
Ao abrir a porta foram cumprimentados pela corrente de ar frio. Apertaram os casacos e saíram. Ela primeiro, ele atrás dela. No fim das escadas ela voltou-se para ele. Enroscava as mãos uma na outra e tinha os olhos mais brilhantes do que nunca.
«Como és bonita!», pensou ele, mas sem coragem para lhe dizer.
«Como adoro o teu sorriso!», pensou ela, mas não lho conseguiu dizer.
– Bem, separamo-nos aqui, não é? Falamos amanhã?, perguntou ele, ansioso pela resposta.
– Sim... Claro, telefona-me amanhã, está bem?, pediu ela, já com saudades da sua presença.
Ele sorriu. Ela sorriu também. Ele aproximou-se dela para se despedir. Ela também.
Ele colocou a mão dele na cintura dela. Ela colocou a mão dela no pescoço dele. E, imprevisivelmente, as suas bocas encontraram-se pelo caminho. E eles beijaram-se. Ternamente. Como se aquele fosse o beijo por que tanto tempo tinham esperado e que tanto tempo demorou a acontecer. Mas era mesmo esse beijo! Aquele que sempre quiseram trocar e nunca o tinham feito por medo. Medo da reacção do outro, da resposta que os esperava. Agora que acontecera não restavam dúvidas! Era paixão o que existia entre eles... e ambos estavam certos disso!
Ficaram abraçados. Já não tinham frio. Era como se o Sol brilhasse mesmo por cima deles. Nos braços um do outro sentiam-se protegidos, tal como nos sentimos nos dias quentes de Verão.
– Até amanhã, então!, disse ele, olhando-a nos olhos.
– Até amanhã!, respondeu ela com o seu sorriso de felicidade.
– Adoro-te, sabias?, perguntou ele. Ela acenou com a cabeça. Ele beijou-a novamente.
Separaram-se, mas as suas mãos mantinham-se juntas. À medida que os passos os afastavam também as mãos se começaram a distanciar. Antes de seguirem direcções opostas, os seus olhares cruzaram-se uma última vez naquela noite.
Ambos levavam a felicidade nos lábios, descrita num sorriso e numa gargalhada contida. E assim regressaram a casa como os restantes, felizes apesar do frio de uma noite de Inverno.

1 de novembro de 2006

Orgulho de ser Português

Portugal vale a pena
Nicolau Santos,
Director adjunto do Jornal Expresso
In Revista Exportar

Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende para mais de meia centena de mercados.E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filmeque quer ver e a cadeira onde se quer sentar.
Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou váriosprémios internacionais.E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros).
Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática.
Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.
Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas. Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas vários dos melhores vinhos espanhóis. E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.
O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive - Portugal.
Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses. Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa, Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d'Oiro, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação. Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto Bay, BES Turismo e Amorim Turismo. E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal, McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada estabelecimento da cadeia norte-americana).
É este o País em que também vivemos.É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com problemasna saúde, no ambiente, etc. Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia.Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito. De nos orgulharmos disso.
De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos - e não invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de palha. E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só futebolísticos, colocamo-nos também na situação de levar muitos outros portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito.
Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados, porque não hão-de os bons ser também seguidos?

Uma segunda oportunidade


Quem não gostaria de saber como seria se tivesse tomado a outra opção?...
Quem não gostaria de ter uma segunda oportunidade?...


Maybe I went to bed one lonely night in December and I imagined it all. But I swear, nothing has ever felt more real. And if you get on that plane right now, it'll disappear forever. I know we could both go on with our lives and we'd both be fine, but I've seen what we could be like together. And I choose us.
Jack (Nicholas Cage) in The Family Man (Dois Destinos)